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Por que o celular atrapalha o sono mesmo com o modo noturno ligado? A luz das telas é só parte do problema. Entenda 3 mecanismos que podem manter seu cérebro acordado.

São onze da noite. O dia foi longo e o cansaço é real, então surge a ideia de olhar o celular só por cinco minutos antes de dormir. Quarenta minutos depois, você ainda está rolando o feed, com o modo noturno ativado e o brilho no mínimo, exatamente como recomendam por aí. E o sono continua sem chegar.

Se essa cena parece familiar, vale entender o que está acontecendo. O uso do celular à noite interfere no sono por caminhos diferentes, e a luz emitida pela tela é apenas um deles.

Como a luz conversa com o seu relógio biológico

Existe na retina um grupo de células que não participa da formação de imagens e contém um pigmento chamado melanopsina. Elas são chamadas de células ganglionares da retina intrinsecamente fotossensíveis (ipRGCs) e têm como função informar ao cérebro se está claro ou escuro no ambiente.

Essa informação segue até o núcleo supraquiasmático, uma estrutura no hipotálamo que funciona como o relógio central do organismo. É esse relógio que organiza o ciclo de sono e vigília ao longo das 24 horas e determina, entre outras coisas, quando a glândula pineal começa a liberar melatonina.

As células ipRGC são mais sensíveis a comprimentos de onda por volta de 480 nanômetros, faixa que corresponde à luz azul. Quando essa luz chega aos olhos no período da noite, pode sinalizar ao sistema circadiano que ainda não é o momento biológico adequado para dormir. Dependendo da intensidade, duração e horário da exposição, isso pode reduzir a secreção de melatonina e atrasar o início do sono. 

Dois detalhes são importantes para entender por que as recomendações genéricas nem sempre funcionam. O primeiro é que o sistema circadiano responde a intensidades de luz relativamente baixas, abaixo do que a maioria das pessoas consideraria uma iluminação forte. O segundo é que a sensibilidade à luz noturna pode variar entre indivíduos. Duas pessoas expostas à mesma tela, no mesmo horário, podem ter respostas circadianas diferentes.

Por que o modo noturno ajuda, mas não resolve

Os filtros de luz azul reduzem a emissão em comprimentos de onda aos quais o sistema circadiano é particularmente sensível. O que a literatura mostra, porém, é que os efeitos objetivos dessas ferramentas são modestos. Revisões sistemáticas com metanálise sobre óculos com lentes âmbar, avaliando desfechos como tempo até adormecer, tempo total de sono e eficiência do sono, encontraram resultados inconsistentes entre os estudos.

Isso não significa que reduzir a luz não seja útil, mas significa que o filtro atua sobre apenas um dos mecanismos envolvidos, enquanto os outros continuam operando.

Também é importante evitar a ideia de que qualquer uso de tela antes de dormir necessariamente causa problemas de sono. O impacto depende de fatores como horário, duração, intensidade da luz, conteúdo consumido e características individuais. O problema pode ser maior quando o celular prolonga a vigília, aumenta a ativação mental ou reduz o tempo disponível para dormir.

O conteúdo da tela também mantém o cérebro acordado

A luz atua sobre o relógio biológico. O conteúdo atua sobre o estado de alerta. São processos diferentes, com efeitos que se somam.

Desta forma, comportamentos como responder mensagens, acompanhar discussões, assistir a vídeos curtos em sequência ou ler notícias mantêm o sistema nervoso em estado de engajamento. O cérebro está processando informação, formulando respostas, reagindo emocionalmente a estímulos. Nada disso auxilia na preparação para o sono, que depende justamente de uma redução progressiva da ativação.

Na literatura sobre insônia, esse fenômeno é discutido como hiperestimulação ou hiperativação. Estudos com pessoas que dormem mal mostram aumento da atividade cognitiva no período que antecede o sono, e essa atividade se relaciona com maior tempo até adormecer e menor eficiência do sono. Ou seja, mesmo depois que a tela é apagada, a mente continua ocupada com aquilo que estava processando minutos antes.

Por isso, ajustar apenas a cor da luz da tela costuma produzir resultados abaixo do esperado. O estímulo cognitivo continua o mesmo.

O terceiro mecanismo: o horário de dormir vai sendo empurrado

Existe ainda um terceiro mecanismo, predominantemente comportamental, que independe da luz e do conteúdo em si. O uso do celular à noite tende a adiar o momento de deitar, e isso acontece mesmo quando a pessoa já está com sono. O uso de telas à noite também está associado a horários de dormir mais tardios e pode reduzir o tempo disponível para o sono. Esse efeito pode ser particularmente relevante quando o horário de acordar precisa permanecer fixo por causa do trabalho ou dos estudos. 

Essa redução se acumula. Uma noite com quarenta minutos a menos de sono pode passar despercebida. Quando essa redução se repete ao longo da semana, porém, a perda acumulada de sono pode começar a se refletir na disposição, na concentração e no humor durante o dia. 

O que fazer na prática

As estratégias abaixo atuam sobre os três mecanismos descritos. Essas estratégias podem ser úteis quando aplicadas de forma consistente e, em muitos casos, vale combinar mais de uma delas. 

Reduza a luz do ambiente, não apenas a da tela. A iluminação do nosso ambiente de casa também emite luz, assim como o celular. Na hora que antecede o sono, prefira uma iluminação mais baixa e indireta, como a de abajures ou luminárias, em vez de manter as luzes principais da casa intensamente acesas. 

Estabeleça um horário de encerramento do uso das telas. Reduzir o brilho e continuar usando o celular até deitar resolve apenas parte do problema. Definir um horário para encerrar o uso, entre trinta e sessenta minutos antes de dormir, atua sobre a estimulação cognitiva e sobre o adiamento do horário de deitar ao mesmo tempo.

Escolha estímulos de baixa ativação. Se a ideia é ocupar esse intervalo, o tipo de conteúdo faz diferença. Ler algo leve, ouvir música calma ou conversar produzem uma ativação menor do que acompanhar discussões, notícias ou séries com narrativas de tensão.

Busque luz natural pela manhã. A regulação circadiana tem dois lados, e o da manhã costuma ser esquecido. A exposição à luz natural nas primeiras horas do dia reforça o sinal de vigília no horário certo e ajuda o organismo a regular o ritmo sono-vigília. 

Observe qual mecanismo pesa mais no seu caso. Algumas pessoas têm mais dificuldade com o adiamento do horário de dormir. Outras sentem mais o efeito da estimulação mental. Identificar isso muda quais estratégias fazem mais diferença para você.

Entender o mecanismo é o primeiro passo

Se você já tentou reduzir telas antes de dormir e os resultados foram inconsistentes, provavelmente havia mais de um mecanismo em jogo, e a estratégia adotada atuava sobre apenas um deles. Isso explica por que uma mesma recomendação funciona bem para uma pessoa e quase nada para outra.

Mudar hábitos relacionados ao sono envolve entender como cada comportamento afeta o organismo, identificar quais ajustes fazem sentido para a sua rotina específica e sustentar essas mudanças por tempo suficiente para que produzam efeito. É um processo com método, e não uma questão de força de vontade.

Foi com esse objetivo que desenvolvemos o Passaporte para o Sono, um curso online sobre boas práticas de higiene do sono. Ao longo das aulas, especialistas certificadas em Psicologia do Sono explicam os mecanismos por trás dos principais hábitos relacionados ao sono e apresentam estratégias práticas, baseadas em evidências científicas, para ajudar você a transformar conhecimento em mudanças possíveis na rotina.

Porque cuidar do sono não é apenas saber que o celular pode atrapalhar. É entender por que isso acontece, quais outros fatores estão envolvidos e quais mudanças fazem sentido para você.

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Referências bibliográficas:

  1. Cajochen C, Stefani O, Schöllhorn I, Lang D, Chellappa SL. Influence of evening light exposure on polysomnographically assessed night-time sleep: a systematic review with meta-analysis. Light Res Technol. 2022;54(6):609-624.
  2. Dressle RJ, Riemann D. Hyperarousal in insomnia disorder: current evidence and potential mechanisms. J Sleep Res. 2023;32(6):e13928.
  3. Luna-Rangel FA, Gonzalez-Bedolla B, Salazar-Ortega MJ, Torres-Mancilla XM, Martinez-Cadena S. Efficacy of blue-light blocking glasses on actigraphic sleep outcomes: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled crossover trials. Front Neurol. 2025;16:1699303.
  4. Zhong C, et al. Electronic screen use and sleep duration and timing in adults. JAMA Netw Open. 2025;8(3):e252493. 

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