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Quando o dia termina com o dever de fazer mais

Para iniciar a leitura do texto de hoje, faço um convite à reflexão.

Na última semana, como você finalizou os seus dias? Ao deitar, o que mais vinha à mente? Sensação de alívio, cansaço, cobrança ou a impressão de que ainda faltava algo?

 

Se você respondeu cansada, exausta ou no limite, infelizmente você não está sozinha. Esta realidade é mais comum do que parece. Muitas pessoas encerram o dia exaustas não apenas pelo volume de tarefas realizadas, mas pela sensação persistente de que poderiam ter feito mais. No contexto do trabalho, é comum observarmos metas em aberto, demandas que se renovam diariamente e mensagens fora do horário de trabalho, fazendo com que mesmo após o fim do expediente, seja difícil encerrar mentalmente o dia. 

 

Quando o descanso não acontece, mesmo fora do trabalho

Neste cenário, o descanso perde espaço. O corpo vai para a cama, mas o pensamento segue ativo, revisando tarefas e expectativas não atendidas, antecipando problemas e avaliando o próprio desempenho. Com o tempo, esse padrão contribui para cansaço crônico, dificuldade para dormir, queda de concentração, irritabilidade e sensação constante de estar em dívida com as próprias responsabilidades.

 

Em muitos casos, essa forma de se relacionar com a rotina não está relacionada com falta de produtividade ou esforço, mas com um padrão de autocobrança elevado, no qual as atividades são vistas pelo que ainda não foi alcançado ou pelo que poderia ter sido melhor. A questão aqui não é dizer que buscar melhora é algo negativo, mas reconhecer que, quando essa busca se torna excessiva e começa a impactar o bem-estar emocional e as noites de sono, ela passa a ser um sinal de alerta. A mente encontra dificuldade para desacelerar, o corpo permanece em estado de alerta e o descanso deixa de cumprir sua função reparadora. Aos poucos, inicia-se um ciclo vicioso no qual a cobrança constante alimenta o cansaço, e o cansaço intensifica a sensação de não ser bom o suficiente.

A sensação de insuficiência não vem da falta de esforço

É importante diferenciar esforço de percepção de valor. Muitas pessoas sustentam ao longo do dia responsabilidades que não aparecem em listas de tarefas ou de metas: manter o funcionamento da casa, lidar com conflitos internos, regular emoções, tomar decisões difíceis, cuidar de outras pessoas e seguir em frente mesmo sem reconhecimento externo.

A tendência de medir o próprio valor apenas por resultados visíveis ou produtividade mensurável contribui para sentimentos crônicos de inadequação ou de crítica. Esse padrão é reforçado por contextos sociais que valorizam desempenho constante, rapidez e alta performance, frequentemente ignorando limites humanos básicos como descanso, pausa e recuperação.

Desta forma, cuidar da saúde mental envolve aprender a reconhecer limites, diferenciar responsabilidade de excesso de cobranças e encerrar o dia sem transformar cada pendência em uma falha pessoal. Exercícios simples de fechamento do dia podem ajudar a reduzir o estado de alerta e favorecer a recuperação emocional e física.

Um exercício simples para encerrar o dia com mais realidade e menos cobrança

Criar pequenos rituais de encerramento do dia pode ajudar a sinalizar ao cérebro que o ciclo de exigência terminou. Um exercício simples, inspirado em práticas clínicas utilizadas na psicoterapia, consiste em três etapas:

Antes de dormir, nomeie mentalmente três coisas que você sustentou ao longo do dia, mesmo estando cansada. Não precisam ser grandes conquistas. Sustentar uma conversa difícil, cumprir um compromisso apesar do esgotamento ou simplesmente seguir funcionando em um dia emocionalmente pesado já contam.

Em seguida, reconheça conscientemente que nem tudo dependeu de você e que nem tudo precisava ser resolvido hoje. Essa etapa ajuda a reduzir a responsabilidade pessoal e controle absoluto, algo comum em quadros de ansiedade e autocobrança elevada.

Por fim, observe como você se sente ao considerar que o seu esforço não precisa ser perfeito para ter valor. Esse reconhecimento, quando repetido ao longo do tempo, contribui para uma relação mais flexível consigo mesma e para uma redução do estado de alerta noturno.

Psicoterapia como apoio para uma relação mais saudável com o trabalho

Quando a autocobrança se torna rígida, persistente e começa a impactar o sono, o humor e a qualidade de vida, buscar apoio psicológico é um passo importante. Pequenas práticas de fechamento, aliadas a um espaço terapêutico de escuta e reflexão, podem transformar não apenas as noites, mas a forma como você atravessa a rotina. Na psicoterapia, é possível compreender os padrões de autoexigência, trabalhar crenças ligadas a desempenho e valor pessoal e desenvolver estratégias para estabelecer limites mais claros entre trabalho, descanso e vida pessoal. 

Na Cronosul, trabalhamos justamente nessa interseção entre saúde mental, sono e autocuidado, ajudando pessoas a construírem rotinas mais sustentáveis e relações mais gentis consigo mesmas. Através da psicoterapia online ou presencial, nosso objetivo é auxiliar as pessoas que desejam construir uma relação mais equilibrada com o trabalho e com suas próprias expectativas.

Cuidar da saúde mental também é uma escolha profissional. Se você sente que o trabalho tem ocupado mais espaço do que deveria, que o descanso não acontece ou que a cobrança e crítica nunca diminuem, contem com a nossa equipe.

Entre em contato e conheça nossas modalidades de atendimento. Seu bem-estar também faz parte do seu desempenho e da sua qualidade de vida. 💙✨

 

Referências bibliográficas

Hayes SC, Strosahl KD, Wilson KG. Acceptance and Commitment Therapy: The Process and Practice of Mindful Change. 2nd ed. New York: Guilford Press; 2012.

Maslach C, Leiter MP. Understanding the burnout experience: recent research and its implications for psychiatry. World Psychiatry. 2016;15(2):103-111. doi:10.1002/wps.20311

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